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Carreira no exterior

Autor: Arthur Cesarino

No último artigo, comentei um pouco sobre transição de carreira dentro de tecnologia e algumas dicas de como se preparar para um novo cargo em uma área correlata. Nesse artigo gostaria de comentar um pouco sobre como foi o meu processo para conseguir uma vaga no exterior, e algumas dicas de como procurar, como se preparar e o que esperar ao se candidatar para empresas estrangeiras.

Um pouco da minha experiência

Trabalho como consultor sênior de dados na Suécia desde fevereiro deste ano. Sempre tive o objetivo de sair do país eventualmente e, no final do ano passado, comecei a me preparar para possíveis entrevistas. Após receber algumas mensagens pelo Linkedin, passei por entrevistas para alguns países e no final acabei conseguindo uma proposta para vir para a Suécia.

A experiência de trabalhar em outro país é incrível, assim como conhecer uma nova cultura.

Acredito que algumas coisas me ajudaram bastante a conseguir essa vaga e é isso que eu vou comentar hoje!

Primeiro, existem algumas formas de se conseguir trabalhar no exterior, mas considerando que você queria ir com o visto de trabalho, são basicamente três:

  • Trabalhar em uma multinacional no Brasil e tentar se realocar para o exterior. 
  • Ir para o exterior para fazer algum curso (como pós-graduação, por exemplo) e procurar trabalho enquanto estuda (meio arriscado, mas possível).
  • Conseguir uma vaga que banca o visto do Brasil e custeia a sua ida para o país de destino.

Como não tenho muita propriedade das primeiras duas formas, irei focar em conseguir trabalho do Brasil, o que eu acredito que seja o melhor dos casos. Dessa forma, irei separar o artigo em três tópicos: Vagas, requisitos e entrevistas.


Vagas

Acho que o mais importante para achar vagas é saber onde procurar. Existem diversas plataformas que te ligam com empresas do exterior (como Toptal, X-team, etc) para quem é dev, e também sites com vagas que te pagam em dólar trabalhando do Brasil e, eventualmente, vagas que bancam o visto. Entretanto, o melhor lugar para achar vagas é o bom e velho Linkedin. Existem uma infinidade de vagas abertas para diversos países, além de recrutadores e headhunters que podem achar o seu perfil e te mandar mensagem referente às vagas disponíveis. Para essa finalidade, existem alguns pontos para checar no seu Linkedin:

  1. Deixe todo o seu perfil em Inglês! Independente do país que você for, salvo em raras ocasiões que você precisa saber a língua nativa, o inglês vai ser a língua que você vai utilizar, da mesma forma que é a língua que os headhunters procuram nos perfis. Então deixe todo o seu perfil em inglês o quanto antes.
  1. Busque perfis de profissionais dos países que você quer ir e tente achar um padrão em como é estruturado: nomeação de cargos, resumos do perfil, escolaridade, etc. Tente deixar no padrão gringo (um exemplo é engenheiro de software pleno, que em inglês seria software engineer apenas).
  1. Coloque notificação de vagas para os países que você almeja e sempre olhe as vagas que aparecerem. Normalmente, quando a vaga não contrata profissionais de fora do país, costuma deixar bem claro na descrição. Se não tiver nada falando: se inscreva e veja no que dá! Não há nada a perder de qualquer forma.

Uma vez deixando seu perfil em inglês e procurando as vagas no exterior, é importante se atentar nos requisitos das vagas e no que é importante ter no seu perfil para que você se diferencie das outras pessoas.

Requisitos

Esse tópico é muito subjetivo dependendo de qual área você quer, mas se tratando de tecnologia ou dados, os requisitos para vagas que mais aparecem são:

  1. Experiência de trabalho. Isso aqui não dá pra fugir, 90% das vagas pro exterior que eu vi costumam pedir pelo menos 3-4 anos de experiência. Isso se deve ao fato de que é muito complicado achar profissionais qualificados e com uma senioridade maior em vários países, então eles acabam abrindo para buscar de fora. Isso não quer dizer que você, junior, não consiga achar alguma vaga por aqui: conheço pessoas com 1 ano de experiência que conseguiram vir pra Europa e estão se dando super bem! Então é questão de conseguir achar a vaga certa ou ter um perfil chamativo o suficiente para ser achado por um headhunter.
  1. Proficiência no inglês. Outro fato importante é conseguir se comunicar. Note que eu não falei “ser fluente”, e sim saber se comunicar. Mais sobre isso no final deste artigo. Se seu perfil estiver em inglês e você for procurado por headhunters ou se inscrever em vagas fora, saiba que todo o processo seletivo e a comunicação será em inglês, então se prepare para isso.
  1. Soft skills. Acho que esse ponto os Brasileiros ganham de lavada de qualquer outro país. Muitas pessoas de outros países que eu conheço são mais “introvertidas” no quesito de comunicação, e você sabendo se comunicar bem e mostrar interesse pelas coisas ajuda MUITO durante o processo. A maior parte dos recrutadores amam brasileiros pelo fato de nós sermos muito sociáveis. Então use isso ao seu favor e mantenha os recrutadores engajados.
  1. Hards skills. As vagas pro exterior costumam ser bem diretas no que eles esperam. Normalmente nas descrições ou em qualquer contato com headhunters, eles vão falar exatamente o que eles querem em termos de tecnologia e hard skills. Mas nunca se esqueça: ninguém tem todos os skills que são anunciados nas vagas! Se você tiver metade das coisas que eles pedem, já é mais do que suficiente pro dia a dia (existem exceções, claro) e não vai te barrar de concorrer pela vaga. Lembre também que existem muitas skills que são correlatas e que é fácil transacionar (como por exemplo ser certificado na Azure e transicionar para GCP ou AWS). Então nunca acredite 100% na descrição da vaga, se você acha que sabe o suficiente pra conseguir ficar confortável, aplica!
  1. Projetos pessoais (github, blogs, etc). Isso aqui é bem interessante. Eu recebi contatos de recrutadores de vários países da Europa (Bélgica, Suécia, Alemanha, Holanda, Inglaterra, etc) e literalmente TODOS comentaram sobre como acham legal eu ter um local onde eu compartilho conhecimento com a comunidade. Isso ajuda muito em mostrar para os recrutadores que você de fato se interessa por tecnologia e ainda por cima ajuda as pessoas a aprenderem democratizando o acesso à informação. Então se você ainda não tem nenhum projeto pessoal, começa escrevendo sobre algo que você gosta e compartilha com as pessoas que você acha que podem se beneficiar disso! É incrível o tanto de gente que se sente engajada por conhecimento, principalmente quando ele é de graça. Claro, isso não é nenhum tipo de ‘requisito’ propriamente dito, mas é uma ótima forma de se destacar.
  1. Contribuir para projetos open-source. Essa aqui eu mesmo nunca fiz, mas conheço muitas pessoas que contribuem bastante para projetos open-source e é algo visto com ótimos olhos por qualquer recrutador. Se conseguir, contribua para projetos open-source! A chance de se usar open-source dentro de empresas é muito boa e isso vai fazer você se diferenciar mais ainda.

Além dessas 6 categorias, ainda existe também o requisito de ensino superior. Muitas vagas acabam pedindo algum ensino superior (ou até mesmo pós-graduação). Entretanto, o ensino superior não é só importante para o requisito das vagas, mas também para o visto: é muito complicado conseguir visto de trabalho e residence permit sem ter ensino superior. 

Entrevistas

Esse tópico também costuma ser bem diferente de acordo com o País/empresa que você está fazendo processo seletivo. Entretanto, baseado na minha experiência, as fases dos processos seletivos costumam ser:

  1. Primeiro contato com o recrutador. Normalmente, você recebendo mensagem diretamente ou aplicando para alguma vaga, sempre tem a primeira conversa com o recrutador. Nessa parte é mais para o recrutador te conhecer, saber um pouco mais sobre a sua experiência e se tem um fit com a vaga que ele está tentando recrutar. Não vejo muita diferença dessa fase no Brasil em relação a vagas no exterior, tirando o fato de que a entrevista é em inglês e costuma ser a primeira impressão do recrutador sobre o seu nível de inglês, se você consegue se comunicar com clareza, etc.
  1. Teste técnico. Isso aqui costuma ter bastante nas vagas que eu participei. Normalmente, depois de falar com o recrutador, costuma rolar um teste de programação online ou ao vivo com algum membro da squad que você possivelmente vai trabalhar. Tem empresas que não fazem teste técnico, tem empresas que fazem online, tem empresas que fazem ao vivo. Como não tem como ter certeza, se prepare para todos os tipos! Deixe as skills necessárias pro trabalho bem em dia para um possível teste. Uma recomendação: para os devs que forem fazer teste de algoritmo, recomendo muito o livro Cracking the Code Interview, do Gayle Laakman. Ele é bem famoso e tem diversos exemplos de perguntas que podem ser feitas em uma prova técnica.
  1. Entrevista técnica. Essa aqui SEMPRE vai ter. Pode rolar de algumas formas: perguntas técnicas diretas (sobre alguma tecnologia, conceito, etc), conversa sobre a prova técnica que você fez anteriormente (como otimizar a solução, o q você poderia ter feito melhor, etc), case técnico de arquitetura (mais comuns para níveis mais seniores) ou uma conversa mais casual sobre coisas técnicas, experiências passadas, etc. Eu já passei por todas essas e, sinceramente, cases de arquitetura e conversas sobre experiências costumam ser as mais interessantes de se fazer.
  1. Entrevista com o Manager. Essa entrevista é bem parecida com a do Brasil: costumam perguntar coisas comportamentais, apresentar a empresa, etc. Pode ser também entrevista com vários Managers ou algum Head de área. Uma coisa que me perguntaram bastante era porque eu queria sair do Brasil.

Creio que em termos de entrevistas, essas 4 etapas são as mais comuns. Dependendo da empresa pode ter mais ou menos etapas, mas em média gira em torno dessas quatro.

Considerando vagas, requisitos e entrevistas, acho que não existe tanta diferença assim com o que nós encontramos no Brasil, tirando a parte da entrevista ser em inglês. Entretanto, existem alguns equívocos que nós como brasileiros cometemos ao se tratar de vagas na gringa, assim como coisas para se levar em consideração ao se mudar de país.


Algumas ideias erradas que costumamos pensar

O primeiro equívoco, e o maior de todos eles, é o nível necessário de inglês. Muita gente acha (assim como eu achava também) que você precisa ser 100% fluente em inglês para conseguir trabalhar no exterior. Isso está MUITO longe da verdade. Ninguém é perfeito e existem muitos estrangeiros de vários países que não possuem o inglês como língua materna. Então é normal você não ser extremamente fluente e não ter o sotaque perfeito, você só precisa saber se comunicar e entender. Lógico, quanto mais fluido o seu inglês for, melhor pra você e para os seus colegas, mas se você conseguir se comunicar mesmo a sua pronúncia não sendo a das melhores, já é mais do que suficiente. Ninguém aqui espera que você fale perfeitamente, isso é algo que nós esperamos de nós mesmos.

O segundo equivoco é pensar que os gringos sao melhores do que a gente. A famosa “síndrome do vira lata”. Costumamos pensar que tudo que vem de fora é melhor do que o que temos no Brasil e isso simplesmente não procede. Inclusive, muito pelo contrário: em tecnologia os Brasileiros têm uma reputação muito boa aqui na Europa. Os que mais entregam nos lugares em que eu trabalhei, eram brasileiros. Nós temos um nível técnico muito bom e principalmente força de vontade de aprender e fazer acontecer! Então vem tranquilo que brasileiro não fica nem um pouco pra trás ao se comparar com os profissionais daqui.

O terceiro é sobre ser subestimado por não ser Europeu ou sofrer algum tipo de preconceito por ser latino. Eu nunca passei por isso, acredito que podem ter países que isso possa de fato acontecer, mas no geral existe um respeito muito grande por todos os estrangeiros aqui. No ambiente de trabalho, a maior parte das pessoas são de diversos países, então já é costume se trabalhar com pessoas do brasil, ásia, índia, etc.

Coisas para se levar em consideração ao mudar de país

Acho que existem muitos fatores que precisam ser pensados ao considerar morar no exterior. Normalmente pensamos muito sobre o salário, etc, mas esquecemos de considerar coisas como: custo de vida, cultura, clima, idioma, etc. Tirando a parte profissional, muita gente acaba voltando pro Brasil por se frustrar com a cultura diferente, o idioma difícil, a comida (cara, que saudades que eu tenho da comida brasileira!). Então planeje muito bem antes de ir, qual tipo de clima, quais as oportunidades que seu cônjuge pode ter no caso de você seja casado, diferenças culturais, idiomas, etc.

Além disso, o custo de vida é algo que pode surpreender muita gente também. Apesar dos salários astronômicos se comparados com o Brasil, o custo de vida é diretamente proporcional ao salário. Tudo aqui é muito caro, então precisa ser levado em consideração o valor do seu salário x padrão de vida que você tem. Muitas vezes, dependendo de quanto você ganha no Brasil, o seu padrão de vida vai ser maior no Brasil do que aqui na Europa, por incrível que pareça. Entretanto, tem coisas que o dinheiro não compra, como segurança, educação, serviços públicos de qualidade, etc. Logo, leve em consideração todos esses pontos se decidir mudar!

Um ponto muito importante que muitas vezes passa batido é o idioma! Apesar de usar inglês a maior parte do tempo no trabalho, dependendo do país que você for, o idioma local pode não ser o inglês. Logo, tenha em mente que eventualmente você terá que aprender um novo idioma caso queira se integrar na sociedade. Ficar usando o google tradutor pra tudo é muito chato, então é mais fácil tirar um tempinho todo dia pra aprender o idioma aos poucos 🙂

Conclusão

Creio que tendo um Linkedin bom, em inglês e com a experiência necessária, é questão de tempo até os recrutadores virem te mandar mensagem. A questão agora é só se preparar bem para as entrevistas que a vaga no exterior não é tão complicada assim! Isso falando em termos da área de tecnologia, é claro. Outras áreas podem ser mais complicadas para conseguir seguir carreira no exterior, mas a tecnologia tem milhares de vagas abertas não só para a Europa, mas como para o Canadá, por exemplo, que é um país que importa muitos Brasileiros.

Uma última dica (que para mim foi muito valiosa) é: se conecte com brasileiros que foram trabalhar no exterior e busque escutar a experiência deles. Conversei com diversas pessoas que trabalhavam fora antes de eu ir também e isso me permitiu agregar muita experiência apenas escutando a história e carreira dessas pessoas. Muitos pontos você pode aplicar na sua própria jornada, então sempre mantenha a mente aberta para novas informações e novas conexões! Tenha em mente que diferentes pessoas com diferentes trajetórias de vida podem ter diferentes experiências no mesmo país, então busque opiniões de mais de uma pessoa.

Isso vale para mim também! Se tiver qualquer coisa que gostariam de perguntar e seja mais específica, manda uma conexão lá no Linkedin e vamos trocar uma ideia! Falar sobre carreira é algo muito gostoso e que agrega para todos.

Um ótimo dia e até mais!

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